Boa gastronomia no Rio: Cadeg

Dez em cada dez chefs do Rio elegem o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara (Cadeg) – ou Mercado Municipal do Rio de Janeiro –, em Benfica, como a sua segunda casa. Em 100 mil metros quadrados, o espaço abriga 700 lojas, entre restaurantes e bancas de flores, frutas frescas, legumes, verduras, vinhos, laticínios, frios e bacalhau. Criado em 1962, como um condomínio particular, por um grupo de comerciantes despejados do mercado da Praça XV para a construção do viaduto da Perimetral, o Cadeg recebe a visita diária de cerca de 7 mil pessoas.

Pergunte pelo Mangabeira, apelido do português Octavio dos Santos, testemunha da história do Cadeg. Ele, que era carregador na Praça XV, chegou ao Cadeg também como carregador. Em 1983, abriu o Poleiro do Galeto, que galeto mesmo não tem há mais de 20 anos. Tem, sim, o famoso “bifão do Cadeg”, um bife de contrafilé de cerca de 300 gramas servido simples ou com alho, cebola, fritas e farofa de ovo. Sentado numa das cadeiras de plástico do botequim com jeito de antigamente, que tem galho de arruda para afastar o mau olhado e azulejos na parede, você saboreia aquela que é a marca registrada do mercado, enquanto observa o vai e vem de gente com sacolas e de carrinhos abarrotados de caixas, legumes e verduras.

Outro português famoso no Cadeg é Carlos Ernesto Cadaz, o Carlinhos do Cantinho das Concertinas. No bar, que durante a semana serve apenas bolinhos de bacalhau e bebidas, Carlinhos costumava reunir os amigos para cozinhar para eles. Até que apareceu um que tocava concertina, uma sanfona típica da terrinha. O radialista Moisés Pinto gravou e levou ao ar, atraindo a colônia lusitana em peso. Assim nasceu, há 15 anos, a festa portuguesa, o maior evento a animar o Cadeg nas tardes de sábado.

Como o bar mesmo é pequenininho, a festa acontece na rua de serviço, detrás, tomada por mais de mil pessoas a cada sábado para ouvir o grupo Amigos do Alto Minho. Junta gente de todas as idades e é impossível ficar sentado muito tempo. Sorte que é fácil entrar na dança, são sempre dois pra lá e dois pra cá, meio puladinhos. Os garçons buscam espaço entre os pares, levando às mesas, além dos bolinhos de bacalhau – sequinhos, entre os melhores do Rio –, sardinhas e galeto assados na brasa, lombo de bacalhau e febras de porco, um corte do lombo que é temperado no vinho branco e assado na churrasqueira a carvão. Tem-se a impressão de que todos se conhecem. Todo mundo que chega ali dá um abraço e dois tapinhas nas costas do Carlinhos. Mas os forasteiros são sempre bem-vindos.

Também vale a pena conhecer o Corujão, onde a pedida é a costela de porco, acompanhada de batatas coradas, batatas fritas, farofa de ovo, linguiça e bacon, arroz, feijão e molho vinagrete. Até o churrasco misto da casa vem com a costela. Já o toque de sofisticação do Cadeg fica por conta do Barsa, inaugurado em 2010 pelo chef Marcelo Barcellos, um autodidata. Quando ele chegou ao mercado, não havia um restaurante com ar-condicionado por lá e os estabelecimentos fechavam aos domingos. Marcelo foi o louco que virou visionário, ao abrir aos domingos, chamando o público com um chorinho de primeira.

A relação de Marcelo com o Cadeg vem da época em que o chef tinha um bufê e se abastecia no mercado. “Via gente comprando vinho Cliquot e indo direto para casa. Podia colocar aquele público para almoçar no Cadeg”, diz. Com uma cozinha de bistrô, bem elaborada, mas farta, Marcelo compôs o cardápio do restaurante a partir de receitas de colonos e de família. O ossobuco de pescoço de cordeiro ao vinho do Porto com mix de cogumelos frescos (shitake, shimeji e de Paris), por exemplo, surgiu quando a mãe pediu que ele fizesse um prato de carne para um almoço em família. Marcelo foi à feira e, como não havia filé de porco, o feirante ofereceu o pescoço do cordeiro.

Com textura de rabada e gosto de cordeiro, claro, o prato vai bem com os acompanhamentos de arroz com castanhas e banana da terra assada, entrando em contraponto ao sabor do vinho. Mais uma boa pedida do Barsa é o coelho ao vinho tinto, preparado com bacon magro, cogumelos frescos e mini cebolas, servido com mix de arroz integral e de cereais. Para abrir o apetite, experimente o pão do chef, recheado com calabresa e provolone, e a bruschetta de bacalhau com cebola roxa, azeitonas portuguesas e ervas frescas.

Um dos mais novos restaurantes do Cadeg é a Gruta São Sebastião, que abriu em dezembro de 2012 como o primeiro do mercado especializado em frutos do mar. Mas frutos do mar com um sotaque português, já que o forte são as 14 opções de bacalhau. O peixe é comprado fresco e dessalgado artesanalmente na casa, dentro da geladeira, com água gelada e muito gelo, num processo que leva sete dias. Um dos pratos preferidos dos frequentadores é o tradicionalíssimo bacalhau a lagareira, assado no forno, com batata bolinha e brócolis americano, mergulhado num mar de azeite.

Cadeg - Gruta São Sebastião - Bacalhau a lagareira vertical

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